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06/02/2026
Cerca de 40% dos estudantes brasileiros já relataram ter sido alvo de alguma forma de bullying, segundo dados do Atlas da Violência 2024, elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esse número, que cresceu de 30,9% em 2009 para 40,5% em 2019, revela que o problema não está diminuindo. Identificar os sinais cedo é fundamental para evitar danos emocionais e acadêmicos que podem se prolongar por anos.
Nem todo conflito entre estudantes configura bullying. Um desentendimento isolado, uma briga pontual ou uma discussão entre amigos são situações comuns no ambiente escolar e não se enquadram nessa definição. O bullying exige três elementos: intencionalidade, repetição e desequilíbrio de poder. O agressor age de forma deliberada, as agressões acontecem de forma recorrente e existe clara desproporção entre quem ataca e quem sofre.
Essa desproporção pode ser física, social ou emocional. A Lei 13.185, de 2015, foi a primeira a definir o bullying como intimidação sistemática no Brasil. Em janeiro de 2024, a Lei 14.811 foi ainda mais decisiva: incluiu bullying e cyberbullying no Código Penal, tornando ambas práticas crimes passíveis de punição judicial. "O bullying não acontece no acaso. Ele se repete porque existe um ambiente que, muitas vezes, não sabe como reagir", diz Derval Fagundes de Oliveira, diretor do Colégio Anglo Salto.
As vítimas de bullying frequentemente não revelam o problema por conta própria. O medo de represálias, a vergonha ou a crença de que ninguém vai ajudar levam muitas crianças a guardar silêncio durante meses. Cabe aos adultos ao redor reconhecer as mudanças antes que a situação se agrave.
A recusa em ir à escola é um dos sinais mais reveladores, especialmente quando a criança antes demonstrava interesse pelos estudos. Queda abrupta no rendimento escolar, perda de concentração e desinteresse por atividades que antes atraiam atenção também funcionam como indicadores. No aspecto físico, hematomas ou arranhões explicados de forma vaga, além de queixas frequentes de dores de cabeça ou de barriga sem causa médica identificada, merecem atenção imediata.
As alterações emocionais costumam ser ainda mais reveladoras. Isolamento progressivo, mudanças repentinas de humor, irritabilidade ou tristeza persistente sem motivo aparente são sinais que não devem ser ignorados. Problemas de sono, como insônia ou pesadelos frequentes, acompanham muitos dos casos documentados pela literatura especializada. Material escolar constantemente danificado ou a perda frequente de pertences também entram na lista de alertas.
O cyberbullying representa uma dimensão do problema que agrava significativamente o sofrimento das vítimas. Mensagens ofensivas, montagens humilhantes e perfis falsos criados para ridicularizar alguém se espalham rapidamente pelas redes sociais. A diferença em relação ao bullying presencial é que a violência digital invade espaços que deviam ser seguros, como o próprio lar. Além disso, as agressões permanecem registradas indefinidamente na internet, tornando impossível escapar delas por conta própria.
Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos indicam que mais de 2.300 denúncias de bullying em instituições de ensino foram registradas em 2024, um aumento de aproximadamente 67% em relação ao ano anterior. Esse crescimento reflete tanto o agravamento do problema quanto a maior consciência da população sobre a necessidade de denunciar.
Derval Fagundes, como é mais conhecido, reforça que a escuta ativa é o primeiro passo decisivo. "Quando a criança consegue falar e sente que foi ouvida de verdade, sem julgamento, ela passa a confiar que não está sozinha nessa situação", afirma o diretor.
Ouvir sem interromper, sem minimizar e sem atribuir culpa à vítima são atitudes básicas que fazem uma diferença enorme. Uma criança que sente que foi validada tende a compartilhar mais informações e a aceitar a ajuda oferecida. Depois da escuta, o próximo passo é contato direto com a escola. Os pais devem procurar a coordenação pedagógica ou a direção, relatar o problema com detalhes e cobrar medidas concretas de proteção.
A escola tem obrigação legal e moral de garantir ambiente seguro para todos os estudantes. As ações que devem ser exigidas incluem investigação cuidadosa dos fatos, conversas individuais com os envolvidos, acompanhamento próximo da situação e implementação de medidas que impeçam a repetição das agressões.
O perfil dos agressores revela mais complexidade do que a maioria das pessoas imagina. Muitas crianças e adolescentes que praticam bullying enfrentam problemas emocionais próprios, como experiências de violência doméstica, negligência afetiva ou dificuldade genuína em desenvolver empatia. Alguns buscam status social através da dominação de outros. Compreender essas motivações não justifica as agressões, mas orienta intervenções mais eficazes que contemplem também as necessidades do agressor.
Punições severas sem processo educativo raramente produzem mudanças de comportamento. O mais eficaz é combinar consequências claras com oportunidades de reflexão, desenvolvimento de empatia e reparação do dano causado. Conversas que ajudem o agressor a compreender o sofrimento que causou, acompanhadas do envolvimento das famílias de ambos os lados, produzem resultados mais duráveis.
Quando as dificuldades persistem apesar das ações da escola e da família, buscar apoio profissional é essencial. Psicólogos e psicopedagogos oferecem suporte tanto para as vítimas, na reconstrução da autoestima e no processamento de experiências traumáticas, quanto para os agressores, na compreensão e mudança de comportamentos.
A prevenção exige esforço compartilhado. Escolas que promovem cultura de respeito e acolhimento da diversidade apresentam menor incidência de casos. Discussões abertas sobre bullying, programas de educação socioemocional e criação de espaços seguros para relatar situações de violência são ações que transformam o ambiente escolar dia a dia.
Famílias que mantêm canais de comunicação abertos com os filhos, observam mudanças de comportamento e participam ativamente do cotidiano escolar contribuem para que problemas sejam identificados antes de se tornar graves. Conversas regulares sobre amizades, dificuldades e alegrias na escola criam oportunidades naturais para que a criança compartilhe experiências difíceis sem sentir que está sendo pressionada. Quanto mais cedo um problema é identificado, maiores são as chances de resolução sem sequelas duradouras.
Para saber mais sobre bullying, visite https://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/34487 e https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/bullying.htm